quinta-feira, 26 de julho de 2012


QUANDO A GENTE SE CALA 

Quando a gente se fala,
Sabe, meu amor,
Quando a gente se fala...
Por um bendito fio de cobre
Que seja...mas o que eu quero dizer é,
Que quando a gente se fala,
Sinto o calor do sol
Atravessar minha carne
Como só uma estrela dessa consegue
E os raios aquecem  meu coração alucinado
Ele bate louco e surtado
E esse encontro é forte
Esse encontro é muito forte
E se fosse da mesma quantia a sorte...

Da mesma maneira eu noto que,
Quando a gente se cala,
Há tanto alvoroço quando a gente se cala
Que parece um mar de desgosto
Eu vejo tudo fugindo ao oposto
E é realmente similar a morte
Esse momento quando a gente se cala
Nada é mais cinza e sem graça
A distância se multiplica entre o quarto e a sala
Permaneço imóvel e sozinho no escuro
Com meu coração que só a esperança ampara
Desacelerando, parece um peixe fora d’água
Pulsando menos e menos e menos...

quarta-feira, 25 de julho de 2012


OLHA  LÁ  O  MARROM

Olha lá o Marrom, tocando pandeiro no bar
Como se o dia nunca mais fosse acabar
Como se cada batida fosse o jantar
E como faz a morena jambo sambar, suar, se acabar

Olha lá o Marrom, acordado de algum lugar
Que improvisou como leito pro seu descansar
Como se cada amanhecer fosse a procura de um lar
Como a certeza de que dele não há par, ele é singular

Olha lá o Marrom, pedindo vaga pra jogar
Como se ninguém ali fosse do seu patamar
As quatro linhas e a trave retangular
Mais que isso só uma nêga pra amassar, amar, beijar

Olha lá o Marrom, trazendo o passado a chorar
Lamentando os erros, tropeços a sussurrar
O rio de desespero que não encontra o mar
Mas olha lá o Marrom voltando a batucar
Olha lá o Marrom a sonhar, se gabar, a enfeitar, a enganar
Olha lá o Marrom chegando pra almoçar

terça-feira, 24 de julho de 2012


ODE À BUNDA PERFEITA

Não sou um brasileiro nato, se acaso é fato,
que se deve apreciar o belo traço feminino,
por sua retaguarda.

Mas...

Preciso comentar daquela bunda,
a que vejo todos os dias
no mesmo horário, em minutos vários.
Preciso ao menos tentar explicar
como é bem feita, charmosa e eleita,
dentre todas  as bundas a perfeita. 

Vocês não estão entendendo!

Sei que é fadado, e não tarado, ao fracasso
o tento de  explica-la e até desenhá-la,
mas sendo da corte ou da senzala
o gene é perfeito,
aquele que esculpiu  tal glúteo,
tal feito.

Sim, é preciso muita engenharia corporal
pra eu me dispor em um sarau.

Ela ainda malha,
talvez ciente e orgulhosa de posse,
ela mantém seus dotes.

Ela ainda falha, desastradamente,
Para que os olhos afoitos parem
de segui-la, de espia-la...

E nem citei o decote, teceria outra ode.

                      

sábado, 30 de junho de 2012

ARTE  D’ÁGUA

A água sob a ponte, escutando sonatas
Corre tranqüila, corre sem pressa
Escorre depressa enquanto se arrasta
É o ritmo das águas...

Não se apressam nem esperam
Estas silenciosas águas

As que despencam das encostas
E em altos tons se mostram
Parecem-se com os véus das noivas
São alvas e são charmosas

São as águas...

São as que lavam nossas mãos calejadas
São as que tiram nosso sono se geladas
São as claras, são as vivas, são aquelas
Que o artista utiliza em sua aquarela

Água do meu mar aberto
Descoberto...por meio das águas
Descubro que tua briga com as rochas
É antiga e salgada história de mágoas

quarta-feira, 30 de maio de 2012


SORTIE

A solidão de Paris é grande, luminosa, um absurdo,
nunca estive tão só entre milhares de pessoas, 
um pária, uma sombra.
Tentei construir pontes, muitas vezes,  
engenheiro frustrado que fui,
mas essas construções só aceitam tijolos franceses,
assim, não pude atravessar barreiras, todas elas,
que me deixaram à mercê do isolamento,
entre a multidão de transeuntes de Barbès Rochechouart.
Meu mapa foi meu amigo e confidente,
testemunho das placas que meus passos não alcançavam,
dos destinos distantes para um forasteiro,
e dos olhares perdidos.
Na cidade luz a claridade é fria,
talvez só para mim, mas deixo registrado um sorriso
para a placa Sortie.

O AMOR REPELENTE

E nos encontramos diante de nossa história
Feita de recusas e desencontros
Um jogo de perigosos danos
Na mão do tempo e seus obscuros planos

Percorremos essa estrada cada qual na contra-mão
Eu digo “sim”, você diz “não”
Eu sou crime e você é perdão
Talvez nos encontremos mas não há previsão

Eu sou a lua do teu meio-dia
Do dia mais quente, mais sem aparente
Nele sou a nuvem fria

Sou o sol da sua noite mais escura
Desse destino que tropeça, na lenta pressa
Dessa distância que perdura

quarta-feira, 25 de abril de 2012

DESPEDIDA SEM ADEUS

Minhas frases cálidas te banharam
Te imergiram num calor desconhecido
E talvez tenham te assustado pelo brilho
Desse verão fora de época, nesse frio

Nossas viagens marítimas se perderam
Em algum ponto desse traiçoeiro mapa
E quando quisemos achar as palavras
Elas se viram sem poder dizer mais nada

Agora estamos em terra e por terra se foram
Algumas considerações a serem feitas dessa odisséia
Desse amor que atuou sozinho e nunca se fez por platéia
Eu nunca quis ser essa sua riqueza
Que você gostou sem nunca ter gastado
Nem fabricar esse amor que mora longe, longe do teu lado

terça-feira, 24 de abril de 2012

BEIRA-RIO

Vou me sentar na praiazinha
Pra tentar relembrar minhas tardes de futebol
A busca da bola que insistia em cair no rio
Os pés esfolados de gastar a bola
Ambos arranhados de tanto combate

Os pés na bola no rio

Como era bom aquele tempo
De cansaço que quase não se via
Do correr sem hora pra parar
Nem vontade havia pra descansar
Apenas o jogo de areia e bola

Os pés na bola no rio

Tantas tardes estendidas
Esticadas até o anoitecer  mal vindo
Onde agora mal se enxergava o amigo
E pouco nos importava a hora
Enquanto que tínhamos tudo, tínhamos bola

sábado, 21 de abril de 2012


BURACOS  NA  ALMA

Você me julga, você me joga
Como carta fora do baralho
Você me esnoba, você me esconde
Entre seu pé e o assoalho

Você é infeliz, não sabe amar
Quando muito, me desenha, um carinho escrito à giz
Que qualquer lágrima apaga

Você me congela, você me isola
Um olhar frio a queimar a pele
Você me hostiliza, você me evita
Me rotula ao que te parece


Desculpe a escrita rancorosa, feita a sangue
Pessoas não tem dimensão da maldade
Usam de palavras afiadas tal crianças brincam com facas
Seus gestos sacam armas....buracos na alma.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

GARDÊNIA

Uma gardênia levantou-se em meu jardim
Imponente, plantada pela mão esquerda de Deus
Transparente, leito de milhões de raios de sol
Que vinham dementes, iluminar a alva pétala

Sinto que um mal tempo encontrou o seu fim
Nas exaustas nuvens negras que se arrastavam
E rodeavam meu horizonte bordado em cetim
Sem a devida coragem elas disfarçavam...

Uma matilha com brilhantes caninos
Fez crescer um medo de tempos de menino
O que acontece nas noites mais escuras?
De quanta fé é a palavra que afirma mas não jura?

Sei que há muita terra entre as águas salgadas
Como sei quase tudo sobre não sabermos nada
E bebo só da fonte da nascente que há em mim
E bebo sorridente, brancos dentes de marfim

E entre devaneios há os ventos que semeiam
Várias vidas na pata direita de um bem-te-vi
Certamente plantada pela mão esquerda de Deus
Que fita orgulhoso a tua gardênia que no chão sorri