quarta-feira, 30 de maio de 2012


SORTIE

A solidão de Paris é grande, luminosa, um absurdo,
nunca estive tão só entre milhares de pessoas, 
um pária, uma sombra.
Tentei construir pontes, muitas vezes,  
engenheiro frustrado que fui,
mas essas construções só aceitam tijolos franceses,
assim, não pude atravessar barreiras, todas elas,
que me deixaram à mercê do isolamento,
entre a multidão de transeuntes de Barbès Rochechouart.
Meu mapa foi meu amigo e confidente,
testemunho das placas que meus passos não alcançavam,
dos destinos distantes para um forasteiro,
e dos olhares perdidos.
Na cidade luz a claridade é fria,
talvez só para mim, mas deixo registrado um sorriso
para a placa Sortie.

O AMOR REPELENTE

E nos encontramos diante de nossa história
Feita de recusas e desencontros
Um jogo de perigosos danos
Na mão do tempo e seus obscuros planos

Percorremos essa estrada cada qual na contra-mão
Eu digo “sim”, você diz “não”
Eu sou crime e você é perdão
Talvez nos encontremos mas não há previsão

Eu sou a lua do teu meio-dia
Do dia mais quente, mais sem aparente
Nele sou a nuvem fria

Sou o sol da sua noite mais escura
Desse destino que tropeça, na lenta pressa
Dessa distância que perdura

quarta-feira, 25 de abril de 2012

DESPEDIDA SEM ADEUS

Minhas frases cálidas te banharam
Te imergiram num calor desconhecido
E talvez tenham te assustado pelo brilho
Desse verão fora de época, nesse frio

Nossas viagens marítimas se perderam
Em algum ponto desse traiçoeiro mapa
E quando quisemos achar as palavras
Elas se viram sem poder dizer mais nada

Agora estamos em terra e por terra se foram
Algumas considerações a serem feitas dessa odisséia
Desse amor que atuou sozinho e nunca se fez por platéia
Eu nunca quis ser essa sua riqueza
Que você gostou sem nunca ter gastado
Nem fabricar esse amor que mora longe, longe do teu lado

terça-feira, 24 de abril de 2012

BEIRA-RIO

Vou me sentar na praiazinha
Pra tentar relembrar minhas tardes de futebol
A busca da bola que insistia em cair no rio
Os pés esfolados de gastar a bola
Ambos arranhados de tanto combate

Os pés na bola no rio

Como era bom aquele tempo
De cansaço que quase não se via
Do correr sem hora pra parar
Nem vontade havia pra descansar
Apenas o jogo de areia e bola

Os pés na bola no rio

Tantas tardes estendidas
Esticadas até o anoitecer  mal vindo
Onde agora mal se enxergava o amigo
E pouco nos importava a hora
Enquanto que tínhamos tudo, tínhamos bola

sábado, 21 de abril de 2012


BURACOS  NA  ALMA

Você me julga, você me joga
Como carta fora do baralho
Você me esnoba, você me esconde
Entre seu pé e o assoalho

Você é infeliz, não sabe amar
Quando muito, me desenha, um carinho escrito à giz
Que qualquer lágrima apaga

Você me congela, você me isola
Um olhar frio a queimar a pele
Você me hostiliza, você me evita
Me rotula ao que te parece


Desculpe a escrita rancorosa, feita a sangue
Pessoas não tem dimensão da maldade
Usam de palavras afiadas tal crianças brincam com facas
Seus gestos sacam armas....buracos na alma.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

GARDÊNIA

Uma gardênia levantou-se em meu jardim
Imponente, plantada pela mão esquerda de Deus
Transparente, leito de milhões de raios de sol
Que vinham dementes, iluminar a alva pétala

Sinto que um mal tempo encontrou o seu fim
Nas exaustas nuvens negras que se arrastavam
E rodeavam meu horizonte bordado em cetim
Sem a devida coragem elas disfarçavam...

Uma matilha com brilhantes caninos
Fez crescer um medo de tempos de menino
O que acontece nas noites mais escuras?
De quanta fé é a palavra que afirma mas não jura?

Sei que há muita terra entre as águas salgadas
Como sei quase tudo sobre não sabermos nada
E bebo só da fonte da nascente que há em mim
E bebo sorridente, brancos dentes de marfim

E entre devaneios há os ventos que semeiam
Várias vidas na pata direita de um bem-te-vi
Certamente plantada pela mão esquerda de Deus
Que fita orgulhoso a tua gardênia que no chão sorri

segunda-feira, 26 de março de 2012


VIDA SEM ENSAIO

Essa coisa da vida não ter ensaio
é um perigo,
um atentado contra o futuro.
Perdi de súbito o amor,
me levaram o humor,
tudo do dia pra noite.
Nem pude dar queixa.
Isso assim me deixa
sem tanta esperança,
mas ela é brasa...

O que eu quero apenas é lhe dizer,
com seu rosto entre minhas mãos,
que uma vida é pouco pra viver contigo,
décadas são poucos dias ao seu lado.
E sou teu amigo. Isso é mais!

Essa coisa da vida não ter ensaio
é um castigo,
te arrasta à caminhos distintos,
longos e sem tempo previsto,
pra voltar e remediar...
Ah, quem, dera pudéssemos consertar
o passo dado e a palavra expelida...
roupa manchada nunca cai bem.

domingo, 25 de março de 2012


FLORATTA  IN  BLUE

Sentado à pose de Rodin e muito menos emblemático,
sou apenas um homem com memórias, vastas.
No labirinto incrustado dentro do baú
de lembranças colecionadas ou não, há tantas.
Imagens de lábios, rabiscos de olhos salpicados de azul,
outrora castanho, as imagens são múltiplas e sem tamanho.
Campos e bangalôs, ondas, areia branca,
cheiro de chá que é de camomila
ou um livro que breve se termina,
deliciosamente novo, em folha.
Me lembro agora de minha atenção
algumas vezes seqüestradas pelas ‘damas da noite’,
aqui mesmo na vizinhança, rápido crime que perdôo.
E muito prazeres mais guardados nos compartimentos mentais,
auditivos, olfativos... Um se sobressai ligeiramente,
me embriaga de outras tão boas memórias.
O olfato me privilegiou um dia e tenho a grata lembrança
do entorpecimento e teu doce veneno me invadiu pelas narinas.
Confortavelmente anestesiado, talvez,
ante a química da alva pele recebendo a Floratta,
depois disso mais nada.
É ver o mundo parar por um instante
quando essa água das flores na sua pele é sorvida,
inexplicavelmente sedante.

sábado, 17 de março de 2012

BARRACÃO  DE  ZINCO

Imaginem que dentro daquele barracão de zinco
Existe uma mulher (e existe mesmo) solitária.
Solitária de muitas coisas que não convém
Começar a dizer.

Ela mexe um pedaço de pau dentro da panela torta
Nas poucas coisas que há pra mexer
Enquanto observa com o rabo do olho
Sua saia feita de crianças (ao que lembra, todas são dela).

Também há um cachorro sem raça e sem nome
Que vagueia por entre as tábuas, apenas ilustra a cena
Seco como o agreste, e o coração da mulher pequena
Que existe com o cachorro no meio da cena urbana
(e existe mesmo)

terça-feira, 13 de março de 2012


UM  CAFEZINHO...

Eu estava próximo do balcão onde pedimos diversos,
onde amostras de massas tantas, sedutoras, nos extraem saliva.
A padaria.
Tem um comércio desses, de delícias diversas
na esquina da minha casa,
padarias daquelas que se impõem e ostentam o nome do bairro,
como que oficiais.
Meu guarda-chuva em punho, incômodo, ali comigo esperava,
frente ao balcão, cárcere de delícias.
A funcionária, dentro de seu uniforme vermelho e branco,
passou levemente,
e ao senhor que estava do meu lado perguntou: ‘Quer um cafezinho?’
Ao que o mesmo respondeu afirmativamente.
Hum, naquela tarde chuvosa cairia bem, mesmo naquela movimentação,
naquele entra e sai, um cafezinho...
e aquele senhor devia ser conhecido da funcionária,
ou ela ofereceria à mim também, um quem sabe fresco cafezinho...
Qualquer um aceitaria, imagino então aquele que avisto na avenida lá fora,
indiferente a chuva e protagonista da tarde, eis o catador de trecos,
imagine um caricato catador e adicione cinco amigos caninos, inseparáveis.
Esse protagonista da avenida abriria um sorriso para um bom cafezinho...
Bom, a balconista pescou minha atenção
e pedi à ela então o famoso pãozinho
que nunca foi francês, mas tava quentinho,
esperando encontrar em casa o que cheira longe, um cafezinho.